“Numa terra de fugitivos, aquele que anda na direção contrária, parece estar fugindo.” (T. S. Eliot)

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domingo, 15 de janeiro de 2012

Faces, Capas e Milhas... Dentes e Olhares!




Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente. Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra; E, ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa; E, se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas. Dá a quem te pedir, e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes. (Mat 5:38-42)


Eis uma parte do Sermão em que John Stott chamava do Sermão da Contra-Cultura, por retratar tudo o que a cultura religiosa instituía na época.
Foi batendo de frente com esta postura dominante nos religiosos da época, que Jesus ensinou que deveriam deixar de observar a Lei de Talião.

Parece que a tal Lei de Talião era ruim, não é? É isto que se prega por ai...
Mas a intenção original do Legislador, ao impor esta lei do "olho por olho", era boa, delimitava a retribuição e o castigo ao crime.
Não era considerada uma regra má, uma lei ruim, ao contrário, era uma solução misericordiosa, graciosa, pois antes não havia essa limitação, não havia proporcionalidade entre o delito (a vítima perder um olho) e a pena (o algoz também perder um olho). E a pena mais comum, independente do delito, era a morte.Os historiadores contam que por qualquer motivo, a sentença de morte era impetrada.
A vítima sentia-se superior e diferente de seu algoz.

O “grande lance”, o detalhe essencial, o maior simbolismo, é que ninguém achava que poderia ir além, ter uma lei religiosa melhor do a do Talião, todos achavam que tal lei já era – por si só – a manifestação justa e perfeita da ação do Divino. Mas chega Jesus e surpreende a todos, indicando uma alteração na lei que já era misericordiosa e tinha até opositores que achavam que era uma lei branda, que quem cometeu qualquer delito deveria era morrer: “Perder um olho para quem arrancou o olho de outrem; é pouco!” Jesus vai além de retribuir o mal com o bem, o “tempero” era um pouco mais forte:

1) “... oferece-lhe também a outra;” : o primeiro tapa era dado com as costas das mãos (meio-tapa e sem força, da esquerda para a direita), o tapa de desprezo, o tapa de redução à insignificância, ao limbo do não-ser, da não importância e da não existência, dar a outra face imediatamente é: Bata-me com mais força,com o seu melhor,com um tapa de verdade, bata-me de verdade!

2) “... larga-lhe também a capa;”: a única parte do vestuário que de fato protegia do frio noturno da região era a capa (normalmente de couro pesado e com bolsos estratégicos com pães e peixes salgados), pela característica do solo da região ser arenoso, a areia não retêm o calor escaldante do dia, portanto não o dissipa à noite. Flávio Josefo registrou que os salteadores dos caminhos que levavam à Jerusalém deixavam suas vítimas somente com a capa, para que não morressem de frio à noite. Dar a capa é entregar tudo e entregar-se totalmente, é a capa do cego Bartimeu que é lançada para trás, é ficar nu e sem proteção, é mostrar-se por inteiro.

3) “...vai com ele duas.”: um soldado romano poderia (com respaldo da lei) obrigar a qualquer cidadão do Império a carregar, durante uma milha, suas bagagens; tanto que quando viam soldados ao longe as pessoas fugiam. Pedia-se que não se conversasse ou se intrometesse nos assuntos dos soldados durante esta milha. Andar uma milha a mais era também poder se expor, era ser identificado como que incluía – não os seus iguais, nisto não há mérito – há nepotismo, mas os seus diferente, não por ser alguém forçado por lei e decreto a se relacionar, mas alguém que poderia ser visto como pessoa (per sonare - persona - pessoa = o funil que fazia ressoar a voz por trás das máscaras no teatro grego) , alguém que tinha voz, que tinha vontade própria.

Muito mais do que uma lei que já era justa e que aplacava o desejo da vingança desproporcional, muito mais do que uma lei que já era amplamente debatida pelos puristas e tradicionalistas que desejavam que por qualquer crime deveria se matar; Jesus chega com a Lei que não era justa, à medida que era Graciosa, e não há mais justiça na Graça, há houve, uma vez só, há dois mil anos, na cruz...

Que aqueles que são caminhantes e peregrinos de qualquer origem e para qualquer destino, possam nos ver e tratar como pessoas.
Que possamos ver as pessoas como seres integrais e respeitá-los, ainda que sejamos caminhantes para o mesmo destino, nunca tivemos, temos e teremos a mesma origem existencial de estímulos e percepções.
Que tenhamos a longanimidade uns para com os outros. Longanimidade que em grego, “makrothumia”, que no vocabulário da época também significava temperança (tempero certo das emoções) e conseguir esperar ou ter paciência.
Estas duas palavras: “makros” e “thumos” possuem significados distintos.
“Makros” remete a algo longínquo, distante, longo.A raiz da palavra é uma outra que é “megas”, que pode significar algo grande, algo que é uma maravilha e que está em um padrão elevado.
“Thumos” pode ser traduzida por indignação, furor, ira, cólera, vontade de retribuir na mesma proporcionalidade e até fora da proporcionalidade.“Thuo”é a raiz desta palavra, em português seria sopro, fumaça e respirar intensamente (respire fundo).Mas como está ligado a sopro, há uma implicação que traz o significado de sacrificar, imolar e matar.
Ser longânimo é uma atitude em que há um longo espaço até que você sinta a vontade de retribuir à altura; ou sob a Lei de Talião.
Mas “makrothumia” também é um grande sacrifício.
Desinflar o peito e parar de afirmar "Eu sou assim mesmo!" e voltar ao chão das gentes, das pessoas, o mesmo chão que Jesus palmilhou para tocar naqueles que Ele quis que fossem feitos iguais.

É ver neste chão e nesta gente “pessoas” que fazem ressoar o seu próprio sotaque existencial de sua origem, sotaque com tessitura,timbre e tom próprios, que os fazem tão diferentes de nós.
É ver em nós “pessoas”, que são tão iguais às outras, porque todos estamos e somos do grupo dos diferentes,tão diferentes que somente o Cristo morrendo na Cruz para nos fazermos um, um Nele, um no Pai e um em nós mesmos.

A cruz não prova e nunca provou que temos valor e somos preciosos, a cruz prova o quanto todos nós éramos e somos depravados. Por causa do que existe em nós ela (a cruz) existiu para Jesus.
A encarnação de Jesus, sua morte e ressurreição provam o quanto somos amados por Deus, não pela justiça de se amar o que é valioso, mas pela Graça de não merecermos nada a não ser a Cruz, sinal - ícone - signo - símbolo - destino justo de nossa culpabilidade.
A cruz prova o amor de Deus para conosco, a sua Graça e Misericórdia...
A cruz foi além da lei do olho por olho e dente por dente, foi a lei da morte, não em nós, mas em Cristo!

Somos diferentes e melhores em que mesmo?

Eis a minha face, a minha capa e a minha milha...

Dinho
Tão diferente e tão igual a cada um de vocês.

Sou injusto!


Como somos injustos!

A começar por esta acusação de que todos são injustos (nem conheço “todos”), isto já cria um bloqueio ao leitor na primeira linha do texto. Corrigirei: Como SOU injusto!

Darei foco somente a um tema: EXPECTATIVAS.

Utilizo critérios e réguas diferentes ao permitir a construção de expectativas.
Para tudo que é relacionado a mim, em circunstâncias de flagrante de terceiros digo que sou umano e pode errar; mas quando diz respeito a outras pessoas, eu nunca perdoaria alguém escrever humano sem “h” e conjugar o verbo poder em outra pessoa que não fosse a primeira do singular: sou humano e posso errar! (Qual foi o seu pensamento quando você leu a linha acima com os erros?).

É, normalmente, existe outro critério de expectativa quando se diz respeito aos outros, acabo exigindo mais das pessoas do que de mim mesmo, as expectativas são mais complacentes quando dizem respeito a mim, mas acabo por me frustrar por demais com as pessoas e circunstâncias ao esquecer que em tudo há o fator X, o fator imponderável, o fator da reação não catalogada em nossa lista de possibilidades e é quando surgem sentimentos e emoções que não constavam em nosso vocabulário e glossário de percepções, esta é a surpresa!

Isto ocorre também quando eu me flagro em ações, reações, estímulos e hábitos que me prometi nunca fazer ou nunca mais fazer, via de regra possuem as mesmos tons de cores das ações dos outros que eu mais critico (isto por uma questão da nossa estrutura emocional que acusa nos outros o que há de ser acusado em nós mesmos), o meu flagrante vira um flagelo criado sob a minha própria frustração sobre mim mesmo, “sob” porque sobrevive abaixo, meio escondido pelas máscaras de que tudo vai bem.

Como sou injusto!
Como sou incoerentemente e paradoxalmente justo e injusto ao mesmo tempo, dependendo da circunstância e de quem se trata.

Vontade de esquadrinhar meus pensamentos e sentimentos e colocar em um plano cartesiano tudo o que ocorre, como causa e efeito, como proporcionalidade direta, pura matemática onde todas as variáveis são conhecidas, assim ficaria mais fácil entender motivos, ao entender os motivos saberemos o “porquê” das ações, reações, estímulos, respostas, sentimentos, percepções; pelo menos há um material físico e objetivo a ser analisado, nem que seja uma equação!

Talvez haja caminhos mais seguros, “Os navios estão a salvo nos portos, mas não foi para ficar ancorados que eles foram criados”, talvez tais caminhos não foram feitos para nós ou não foram feitos para descansar, “Ainda que você esteja no caminho certo, você pode ser atropelado se apenas permanecer parado nele”, talvez descansar não seja tão somente chegar e estagnar, “O analfabeto do século XXI não será aquele que não conseguir ler ou escrever, mas aquele que não puder aprender, desaprender e, por fim, aprender de novo”.

Aprendi a não esperar de ajuntamentos que propagam verdades transcendentais e mensagens ligadas a fé, ELE é o que É, nós não passamos de pó, nossa origem e destino, o que passar disto é vaidade! O simples fato de acusar, julgar ou disciplinar alguém que é tão pó quanto eu, é sinal claro e objetivo de minha cega visão e louca percepção de superioridade, ainda mais quando os julgamentos são movidos por paixões históricas e pessoais.

Aprendi a não esperar de pessoas, pelo simples fato delas serem pó, tanto quanto eu, e pelo simples fato de eu conhecer um pouco do que sou capaz, e como todos somos pó, extrapolo e conheço um pouco do que todos nós somos capazes, não me assusto com ninguém, somente comigo, e sei que não devo esperar nada de ninguém pelo simples fato de não esperar nada mim.

Aprendi a não esperar DE Deus, pois os caminhos Dele são mais altos do que os meus, e os pensamentos Dele eu nem consigo alcançar; aprendi a esperar NELE sem escolher o “meu prato de benção” no menu a La carte da religiosidade que determina o que o Eterno é obrigado a fazer, sabendo que tenho colhido o que tenho plantado em um curso natural de minha existência na causa e efeito, tenho recebido o que não mereço em um ciclo de Graça, não tenho recebido o que mereço em um ciclo de misericórdia, mas todo bem provêm Dele.

Isto é religião? Não
Isto é dogma? Não
Isto é igreja? Não
Isto é fanatismo? Não
Isto é algum movimento? Não
Isto é alguma defesa teológica? Não
Isto é o quê?
Isto é um blog com um texto que você está lendo, só!

Espero que você... Ah, quer saber? Não espero nada!
E você? Saiba o que esperar, somente isto!
Que ELE, o tão esperado entre as Nações, seja contigo...


Contraditoriamente;

Dinho